quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

KAZIMIR MALIÉVITCH

Kazimir Severinovitch Maliévitch (Казимир Северинович Малевич, russo, 1878-1935). Sportsman: Victory over the Sun - óleo sobre tela, 1916. Museu do Estado Russo, São Petesburgo.



fonte: www.ellenismos.com

Rebenta a revolta em Moscou entre 1912 e 1913. A vanguarda russa se insurge contra o invasor, quer seja fauvista, cubista, futurista, ista-ista-ista... "É só depois de ter tomado consciência dos seus recursos orientais, depois de se ter reconhecido como asiática, que a arte russa entrará numa fase nova e rejeitará o jugo vergonhoso e absurdo da Europa, a Europa que nós já há muito ultrapassamos", clama Benedikt Livchits no "Arqueiro com Um Olho e Meio". Larionov faz coro: "Somos contra o Ocidente que vulgariza as nossas formas orientais..." Ao fundar o Raionismo, movimento futurizante no qual o seguem Gontcharova, Chetchenko, Ledentu e outros pintores, Larionov pretende se demarcar do movimento futurista italiano.

Malevitch, por seu lado, não tem problemas nacionalistas. Está demasiado consciente da cultura asiática que nele está entranhada para temer a influência da Europa. Pelo contrário, ele entende por bem não se privar dela, quer venha de Paris ou de outro lugar, pois o seu único objetivo é criar uma "arte universal", embora permanecendo enraizado no seu universo russo. Abandona o Neo-Primitivismo, e as suas relações com Larionov se esgotam. O Raionismo não lhe interessa nada, e na exposição "O Alvo", em 1913, com obras marcadas pelo Cubismo, Malevitch destoa no meio dos neoprimitivistas e dos raionistas e ao mesmo tempo se lança para novos horizontes, onde irá fazer de chefe-de-fila de um novo "Vanguardismo" russo.

Não está sozinho e se aproxima dos futuristas que se reúnem em Petersburgo, em casa de Matiuchine e Elena Guro. Os poetas Alexis Krutchenik e Velimir Klebnikov, a pintora Olga Rozanova, fazem parte dos membros mais ativos.

Com Vladimir Maiakovski, os irmãos Burliuk e Vassili Kamenski, que têm por base Moscou, vão formar um movimento futurista, rico e variado. Sob a assinatura de David Burliuk, Krutchenik, Maiakovski e Klebnikov vão publicar um violento manifesto intitulado "Bofetada ao Gosto Público", que fará sensação: "Só nós somos o rosto do nosso tempo... o passado é tacanho. A Academia e Puchkine são mais incompreensíveis do que os hieróglifos!". A força de aplicar à letra o princípio de Cézanne, que pretende que se geometrize tudo, Malevitch percebe que quanto mais desenvolve esta análise geométrica e quanto mais as obras que daí resultam explodem, mais elas se tornam abstratas.

Kazímir Severínovitch Maliévitch (Kiev, 1878 -, Leningrado, 1935), Quadro Negro, 1913-15.


Assinatura sob a reprodução litográfica de Quadro Negro:

1- O último plano suprematista na linha das artes, da pintura, da cor, da estética, solto de sua órbita.

2- O plano é construído na quinta dimensão (a economia), base sobre a qual todas as formas de todos os esforços criativos das invenções e das artes devem se desenvolver.


AFIRMAÇÃO "A" NA ARTE
Maliévitch, Dos novos sistemas na arte, 1919.

1- Afirma-se a quinta dimensão (a economia).

2- Todos os processos inventivos, as edificações, a construção e o sistema de arte devem se desenvolver sobre a quinta dimensão.

3- Todas as dimensões que desenvolvem os movimentos dos elementos da pintura, da cor, da música, da poesia, das construções (da escultura) avaliam-se do ponto de vista da quinta dimensão.

4- A perfeição e a modernidade das invenções (obras de arte) determinam-se pela quinta dimensão.

5- O controle estético é rejeitado como medida reacionária.

6- Todas as artes, a pintura, a cor, a música, as construções, qualificam-se como um parágrafo da "criação técnica".

7- Rejeitar a força espiritual do conteúdo porque pertence ao mundo verde de carne e osso.

8- Reconhecer, temporariamente, o dinamismo como a força que aciona a forma.

9- Reconhecer a luz como uma cor de procedência metálica, e a imagem dos raios da luz como correspondente do desenvolvimento econômico da cidade.

10- Relacionar o sol - a fogueira da iluminação - ao sistema do mundo verde de carne e osso.

11- Libertar o tempo das mãos do Estado e convertê-lo ao uso dos inventores.

12- Reconhecer o trabalho como um atavismo do mundo antigo e violento, pois a modernidade do mundo se baseia na criação.

13- Reconhecer a habilidade de inventar de qualquer um, e declarar que, para a realização, cada um terá necessidade ilimitada de materiais na Terra e acima dela.

14- Reconhecer a vida como um caminho auxiliar alimentar para o nosso movimento principal.
15- Rejeitar todos os bens dos reinos celestiais e terrenos e todas as representações destes por trabalhadores da arte como uma mentira que encobre a realidade.
16- Transferir para a previdência social todos os trabalhadores das artes acadêmicas como deficientes velhadores do movimento econômico.
17- O cubismo e o futurismo definem-se como a perfeição econômica do ano de 1910; definir suas construções e seus sistemas como o classicismo da década de 1910.
18- Conclamar o conselho econômico (da quinta dimensão) para liquidação de todas as artes do mundo antigo.
*

Foto-recriação de Os Esportistas, de Maliévitch. Da exposição Virada Russa/ CCBB-SP, 2009 [Veja mais imagens aqui.]

POESIA SOVIÉTICA
[Seleção do livro de Lauro Machado Coelho, Ed. Algól, 2007.]

"É preciso sonhar, sim, mas à condição de transformar nossos sonhos em realidade." 
-Vladimir Ilitch Lênin

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