quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Em atrito com partidos, Dilma aproxima-se de movimentos sociais

Em rota de colisão com partidos aliados contrariados, Dilma Rousseff tenta reforçar relações com movimentos sociais. Num mesmo dia, participa do encerramento de marcha anual de mulheres do campo e concede primeira audiência exclusiva à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Presidenta repete estratégia de Lula de se apoiar nos movimentos sociais em tempos difíceis. Ela aconselhou-se com antecessor na semana passada.
BRASÍLIA – Em meio a conflitos com partidos aliados, a presidenta Dilma Rousseff terá nesta quarta-feira (17/08) uma agenda dedicada à aproximação dos movimentos sociais, ponto de apoio do ex-presidente Lula na crise do suposto “mensalão”. Dilma vai participar do encerramento da Marcha das Margaridas, que a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) organiza todo ano para defender camponesas. E receberá a Central Única dos Trabalhadores (CUT), aliada histórica do PT, para a primeira reunião exclusiva com a entidade desde que tomou posse.

A ida à Marcha, segundo Carta Maior apurou, é uma decisão política que contraria recomendação da segurança presidencial (o evento ocorre em um parque de Brasília) e é comemorada em setores do Palácio do Planalto que acham que Dilma precisa manter canal direto e permanente com os movimentos sociais, como Lula fazia. O ex-presidente, aliás, participou só uma vez da Marcha, em 2007. No primeiro ano de mandato, limitou-se a receber um grupo de manifestantes no gabinete.

Antes de ir à Marcha, Dilma sentará com a direção nacional da CUT, na primeira audiência da entidade a sós com ela. Desde o início do ano, a presidenta tinha encontrado os dirigentes apenas em ocasiões em que também estavam outras centrais sindicais.

A CUT, tradicionalmente ligada ao PT, vinha reclamando de pouca atenção dispensada pela presidente e pelos ministros em geral, à exceção do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho. O ápice da contrariedade foi o boicote da central e suas congêneres ao lançamento do pacote de medidas pró-indústria, que consideram ter sido negociado apenas com o empresariado.

“Queremos discutir uma demanda estruturante nossa, que são as contrapartidas sociais quando há concessão aos empresários”, disse à Carta Maior o secretário-geral da CUT, Quintino Severo. “Também vamos mostrar que a CUT, historicamente, sempre defendeu um determinado projeto de desenvolvimento do país. É importante que a presidenta ouça isso da gente.”

Antes de ir à Marcha e de receber a CUT, a presidenta terá ainda uma audiência com a secretaria-geral da maior central sindical do planeta, Sharan Burrow, da CSI.

Estratégia Lula
A presidenta tem sido aconselhada, especialmente pelo ministro Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula por oito anos, a manter-se próxima dos movimentos sociais, importante base de sustentação do governo. 

Uma aproximação mais forte foi estratégia usada pelo ex-presidente em 2005, quando estourou a crise do suposto “mensalão”. Lula decidiu intensificar as viagens pelo país, para ter mais contato direto com a população, e a relação com os movimentos sociais, como centrais sindicais, UNE e MST. Nessa época, a CUT aderiu ao governo, com a indicação do seu então presidente, Luiz Marinho, para o ministério do Trabalho.

Na semana passada, Dilma teve uma longa conversa com Lula sobre como lidar com as dificuldades políticas que alguns partidos aliados tentam impor a ela, em resposta ao jogo duro presidencial – o governo segurou a liberação de emendas parlamentares e demitiu pessoas denunciadas em reportagens da imprensa, por exemplo, além de ter conversado pouco frente a frente. 

Nessa terça-feira (16/08), depois de um evento no Planalto. Dilma deu uma declaração que sugere uma tentativa de se libertar um pouco da postura que ela mesmo e alguns auxiliares alimentaram, de que a agenda da moralidade seria a primeira da lista de prioridades. 

Questionada por jornalistas sobre o combate à corrupção, respondeu: “Meu desafio não é isso, meu desafio nesse país é desenvolver e distribuir renda. Esse é meu grande desafio. O resto a gente tem que fazer por ossos do ofício.”

Depois, perguntada se todos ministros denunciados têm apoio dela, respondeu: “Todos.”

A “faxina” da presidenta no ministérios dos Transportes rendeu 52% de aprovação entre os brasileiros, mas custou 47 votos automaticamente a favor do governo no Congresso, com a decisão do PR de deixar a base aliada de Dilma e ser independente. Para consegui-los, a presidenta terá de negociar a cada votação.

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