quinta-feira, 10 de março de 2011

A centralidade do trabalho

Emir Sader no Blog do Emir

Durante muito tempo as análises críticas do capitalismo promoveram as relações de trabalho a tema central, a partir das próprias análises de Marx, que definem como centrais as relações capital-trabalho nesse tipo de sociedade. Se deduziam, no campo político, consequências que reduziam praticamente as contradições sociais a essas relações que, uma vez superadas, levariam à emancipação de toda a humanidade.

Temas como os de gênero, de etnias, de meio ambiente, seriam resolvidos pela superação da contradição capital-trabalho. Mais além de saber se os países que se assumiram como socialistas ao longo do século XX aboliram essa contradição central (avançaram nessa direção, mas estatizaram os meios de produção ao invés de socializá-los, abolindo ou quase, a propriedade dos meios de produção, mas transferindo-a para uma burocracia estatal e não para os trabalhadores), nessas sociedades aquelas contradições, apontadas como secundárias, sobreviveram fortemente.

Com as grandes transformações operadas no mundo a partir dos anos 80, o mundo do trabalho passou por um processo de total reversão dessa centralidade, seja pela incorporação positiva de outras contradições – como as apontadas, de gênero, de etnia, de meio ambiente -, mas também como uma enorme desqualificação das atividades ligadas ao trabalho.

Como ressaca daquela centralidade excludente do período anterior, se passou ao seu oposto.

O tema, que era um dos mais abordados na vida acadêmica nas décadas anteriores, passou a ser um entre outros, com interesse claramente declinante. A mídia passou a inviabilizar totalmente as relações de trabalho – tanto o noticiário, quanto a ficção, como as telenovelas, em que o mundo do trabalho praticamente não existe, apenas marginalmente.

Como interessa às elites dominantes ter as centrais sindicais e os sindicatos em situação de marginalidade de fraqueza, esse objetivo foi levado adiante com afinco. Criaram um mundo em que aparentemente ninguém mais trabalha, quando é o contrário o que ocorre: nunca tantos viveram do seu próprio trabalho. Acontece que as duríssimas políticas neoliberais incentivaram o trabalho precário, promovendo a fragmentação da classe trabalhadora. Nunca se trabalhou tanto, nunca tantos trabalharam tanto, mas em condições heterogêneas, com alto desemprego e subemprego, sem carteira de trabalho, sem poder apelar à lei e à organização sindical.

Mas a grande maioria da humanidade vive do trabalho e para o trabalho. Dedica todo o seu dia a isso, desde que se desperta, passando pelo duro transporte até o local de trabalho, por jornadas pesadas, pelo retorno à casa, processo que no seu conjunto abarca praticamente 2/3 do dia, para descansar, repor minimamente as energias e retornar no dia seguinte.

O trabalho continua sendo a atividade que, de longe, mais ocupa a grande maioria da humanidade. Uma atividade precária, mal remunerada, alienada -em que os trabalhadores, que produzem as riquezas, não decidem o que produzem, para quem produzem, a que preço, etc. -, que é o cotidiano de bilhões de pessoas em todo o mundo.

Desconhecer essa realidade ou subestimá-la, é se situar fora do mundo real das pessoas. Não por acaso as políticas que mais distribuem renda – confirmado pelo processo brasileiro – tem a ver com aumentos de salários, em particular do salário mínimo, de tal forma as atividades de trabalho são centrais para a sobrevivência das pessoas.

Se as atividades humanas não podem ser reduzidas às do trabalho, a realidade é que elas cruzam a vida de praticamente todos: negros, índios, mulheres, idosos, crianças (infelizmente) trabalham. Os empresários, por sua vez, vivem do trabalho alheio.

Por isso as atividades do mundo do trabalho e tudo o que as envolve tem que voltar a ser preocupações centrais dos governos democráticos, dos movimentos populares, do pensamento crítico e de todos os que lutam pela emancipação humana, conscientes que as relações continuam a ocupar lugar central no capitalismo – seus economistas não subestimam isso – e tem que ser contempladas centralmente na construção de um Brasil justo e solidário.


Militantes farão protesto na casa de Gilberto Kassab

Após oito grandes atos no centro de São Paulo, MPL decide pedir revogação do reajustes em frente à residência do prefeito


da Redação Brasil de Fato


Nesta quinta-feira (10), o Movimento Passe Livre de São Paulo (MPL-SP) realizará mais um protesto contra o reajuste das passagens dos ônibus municipais. Desta vez, a manifestação será em frente à residência do prefeito Gilberto Kassab (DEM), nos Jardins.

A concentração será às 17h em frente ao Shopping Iguatemi, que fica na Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2232, zona oeste da capital paulista. De lá, os manifestantes seguirão até a casa do prefeito.

Desde o início deste ano o MPL já realizou oito grandes atos pela revogação do reajuste, vigente a partir do dia 5 de janeiro, que fez com que as passagens dos ônibus subissem de R$ 2,7 para R$ 3. Além disso, o movimento cobra explicações da administração pública sobre o aumento e pede que o prefeito os receba. No entanto, mesmo após audiência pública na Câmara dos Vereadores e promessas de negociação, Kassab disse que o assunto será tratado pela Secretaria Municipal de Transportes.

Nesta terça-feira (08), durante uma viagem sobre negócios imobiliários em Paris, Kassab foi surpreendido por um grupo de jovens que protestavam contra o aumento das tarifas. O secretário adjunto de relações internacionais da prefeitura, Guilherme Furegato Mattar, falou com os manifestantes, mobilizados na entrada da Feira Internacional dos Profissionais do Setor Imobiliário, e se comprometeu a encaminhar notificações à prefeitura.

Na capital paulista, o último protesto contra o reajuste ocorreu no dia 3 e reuniu cerca de 1.500 pessoas no centro. Para a próxima semana, já está agendado o 9º grande ato contra o aumento das tarifas, que será realizado na quinta-feira (17).



laranja mecânica


às vezes me desespero
e cometo absurdos

às vezes simplesmente
fico mudo


não sei de onde vim
nem porque assim
me desnudo

Lau Siqueira
(do livro Sem Meias Palavras, Editora Idéia-PB, 2002)
http://poesia-sim-poesia.blogspot.com/



"Agrotóxico vai contaminar a água e desequilibrar a oferta de alimentos", diz pesquisadora

Por: João Peres, Rede Brasil Atual


Raquel Rigotto, durante aula na Fiocruz (Foto: EPSJV/Fundação Osvaldo Cruz/Divulgação)

São Paulo – A professora e pesquisadora do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará Raquel Rigotto alerta para o risco de contaminação das áreas agriculturáveis do país devido ao uso abusivo de agrotóxicos por parte das empresas do agronegócio.

Em entrevista à Rede Brasil Atual, Raquel, que também é coordenadora do Núcleo Tramas – Trabalho, Meio Ambiente e Saúde, critica o modelo de desenvolvimento agrícola adotado pelo Brasil e prevê que a continuidade do atual padrão pode levar ao adoecimento da população, além de pouco contribuir para o abastecimento e a segurança alimentar no país.

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

O Ibama divulgou no fim de janeiro uma pesquisa sobre os agrotóxicos, que confirma que 67% das vendas destes insumos estão na mão da Monsanto. Como isso se relaciona com um consumo tão grande de agrotóxico, o que isso indica em termos de alimentação e de segurança alimentar?

Em termos de alimentação, nós vamos ter um comprometimento importante na contaminação da água e na contaminação dos alimentos propriamente ditos e isso acarreta implicações muito importantes pra saúde humana. Há evidências que a ingestão de água contaminada com pequenas doses de diferentes princípios ativos de agrotóxicos podem provocar uma série de agravos à saúde, como o câncer. Especialmente o câncer de mama, já temos evidências de como o DDT, por exemplo, pode provocar alteração do sistema imunológico, alteração do sistema endócrino, do fígado, dos rins e da pele, alteração sanguínea, alergias, enfim, um amplo leque de agravos à saúde.

Em termos de segurança alimentar é importante a gente considerar também que o agronegócio está voltado para a produção de commodities, então ele tem ocupado terras agricultadas e terras férteis, tem se expandido através de biomas fundamentais para o equilíbrio ecológico como a Amazônia, o cerrado e a caatinga.

Com isso, ele concentra terra e reduz o espaço da produção da agricultura e com isso estamos assistindo à alta dos preços dos alimentos. Processo semelhante está acontecendo nos Estados Unidos com o etanol a partir do milho. Ações do agronegócio têm tido muita implicação na segurança alimentar, além da incompatibilidade da convivência entre o modelo de produção da agricultura camponesa e o modelo do agronegócio.

Nós temos acompanhado por exemplo assentamentos do MST rodeados de empreendimentos do agronegócio, em que as pulverizações são muito frequentes e as chamadas pragas saem (das plantações) do agronegócio por causa do veneno e vão para as plantações dos camponeses.

Sobre a questão da alta do preço dos alimentos, já faz alguns anos que se vem alertando pra isso. Qual vai ser a saída pra isso, se mantivermos a opção pela industrialização agrícola?

A gente tem uma artificialização cada vez maior do padrão alimentar da população em função disso, a soja, por exemplo, vai ser usada como componente da ração que vai ser oferecida a animais, e isso volta pra nós em forma de 'nuggets'.

Temos visto um crescimento rápido de obesidade entre adolescentes brasileiros. O IBGE mostrou que essa obesidade é acompanhada por um padrão nutricional precário, déficit imunológico, ingestão de várias substâncias químicas, como corantes e conservantes. Também provoca uma contaminação por causa do lixo gerado pelas embalagens dos alimentos.

Há esforços governamentais no sentido de fomentar a ecologia como política de desenvolvimento?

O que a gente percebe contemplando os orçamentos é uma enorme desigualdade. Se eu não me equivoco, em 2010 foram R$ 100 bilhões para o agronegócio e R$ 16 bi para a agricultura familiar. Uma coisa é você ter dentro do Ministério de Desenvolvimento Agrário um setor que cuida da agroecologia, com técnicos muito respeitados e apaixonados por essa causa. E outra coisa é você fazer disso o marketing verde do governo, pra esverdear o modelo de desenvolvimento, mas é algo que está fora da realidade.

Então o que a gente vê é que o governo federal não tem uma política voltada para isso. Por exemplo, há uma lei federal que isenta 60% do ICMS para produtos agrotóxicos. Temos um incentivo fiscal do governo federal ao consumo de agrotóxicos, uma lei como essa é uma antítese de uma escolha agroecológica.

A Anvisa vem sendo muito criticada pelos representantes do agronegócio no Congresso por ter passado a revisar o uso de algumas substÂncias, como é que a senhora vê esses ataques?

Essas empresas transnacionais, eu imagino que no planejamento estratégico delas umas das vantagens comparativas dos países do Terceiro Mundo, como a gente era chamado, é supor que não vão encontrar ali nem pesquisadores e nem instituições públicas com capacidade técnica de antever a evidência dos padrões que eles querem fazer aqui.

Eles ficam muito excitados. Eu identifico isso no caso dos servidores públicos da Anvisa - como servidora pública de uma universidade pública eu percebo isso. Não estava no plano deles ter um orgão público que venha 'criar caso', que venha aqui pra competentemente realizar o trabalho (de fiscalização).

A Anvisa tem tentado isso, ela tem tido dificuldades internas no governo. É necessário que a sociedade fortaleça esse tipo esforço para tratar com o devido rigor as "armas químicas". É impensável que um cidadão qualquer - que pode ser um louco, um desequilibrado - possa chegar numa loja e comprar 100, 200, 300 quilos de agrotóxico, que é um veneno, desde que ele tenha dinheiro para pagar. Isso é inconcebível e insustentável do ponto de vista de política pública.

Em relação às consequências, você poderia citar alguns exemplos de casos crônicos de intoxicação por agrotóxicos, que não são tão aparentes e que não ocorrem logo após o uso?

Sim, são chamadas de efeitos crônicos dos agrotóxicos, que têm a ver com a exposição diária a pequenas doses de exposição de variados produtos. Ao longo de um tempo, de um ano, dois anos, a gente vê uma série de efeitos e ultimamente tem se discutido bastante sobre esse papel dos disruptores endócrinos, que às vezes ocupam o nosso corpo no lugar dos nossos hormônios sexuais.

Eles produzem alteração na fertilidade, má formação congênita nos fetos humanos e alterações neurocomportamentais: insônia, irritabilidade, alteração de memória e até alteração de comportamento mesmo, inclusive inclinações suicidas.

Já temos estudos na cultura do fumo no Rio Grande do Sul, da soja em Dourados, no Mato Grosso do Sul, e estudos internacionais comprovando a elevação da taxa de suicídio entre trabalhadores expostos ao agrotóxico.



VIDA CACHORRA


Por que vida cachorra? Por que não "vida de cachorro", que é o que se usava para designar uma vida perdida, de fome, de abandono e solidão? De ataques perversos, às vezes, sem razão aparente. Vida de quem anda na rua, sem lugar certo, sem saber de amanhã.

É que os tempos mudaram muito. A vida de cachorro agora é luxo. Já a vida cachorra significa ainda menos, que ela foi rebaixada para o gênero feminino, onde se destaca mais o que é viver com a força do nada, pensando em coisas que não são próprias, deixando-se levar apenas pelos acontecimentos, que é o que acontece hoje com as mulheres.

As cachorronas aceitam seu papel. Não o discutem e vão até as últimas consequências.

Mas um dia a casa cai : incesto, aborto, despejo, expulsão, alcoolismo, prostituição - a tragédia usual de milhões de janaínas, suelis, e suellens.

Os homens também sofrem, os pobres homens pobres. Uns são jogadores de futebol. Elas são as mulheresquequeremcasarcomumjogadordefutebol.

Tudo isso é para falar do livro de Mariel Reis, VIDA CACHORRA. Será que a vida ainda tem lugar para a ficção? Em Mariel, tem. Trata-se de um escritor de verdade, salvo pela literatura, a quem corresponde igualmente, uma vez que é também seu dedicado divulgador. Lê tudo, comenta tudo, faz contatos e cria laços. Grande leitor, escritor inquieto e talentoso, Mariel está aí tomando lugar, com honra, entre os novos contistas brasileiros.

Desde Linha de Recuo, de 2006 a John Fante trabalha no esquimó, de 2008, trabalha sem parar. O resultado vem. Os 12 contos de Vida Cachorra são tacadas difíceis de aguentar. Vê-se logo que as feridas são feias. Há que suportá-las e ir em frente, ou entregar-se. Mas os personagens de Mariel se entregam por paixão e deixam sangrar.

Depois de publicar uma série de poemas na plaquete Cosmorama, em 2009, surpreendentes poemas que produziu num espaço curto de tempo, poemas que chegavam em sonho, ele escrevia e mandava para os mais chegados, Mariel volta, agora, aos contos, seu gênero preferido, com o texto mais firme, mais enxuto. As palavras precisas, as falas absolutas. Não há lugar para sobras e gordurinhas. Escrita resoluta, sem vacilos, de quem perdeu todo o medo. Aprendeu na luta. E há diferença entre Dalton Trevisan, Marcelino Freire ou Rubem Fonseca, de quem Mariel traz referências e influências. É que ele sabe por dentro do que está falando.


Aí está. Essa opinião não é só minha, eu acho, porque o livro vendeu bem no lançamento, num sinal evidente de que a qualidade do autor já se alastrou. E que siga!

Helena Ortiz
http://integradaemarginal.blogspot.com

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