quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Uma outra Africa é urgente

césar castro - wermer além da alma

Entre a Africa do Sul e o Senegal, a organização brasileira do Forum Social Mundial acertou em firmar a posição de realizar esta décima-primeira edição em Dakar. É fundamental para os que militam por um outro mundo possível entrar em contato com a realidade em que o Senegal mergulhou nesses também onze anos de governo de Abdoulay Wade, depois do esforço poético e bem-sucedido de Leopold Sedar Senghor de promover no país, e propagar pelo continente, o orgulho de suas culturas e a força política do sentido do Panafricanismo.


Abdoulay Wade é o terceiro presidente da República do Senegal. Está com 85 anos e isso não teria a menor importancia se seu discurso conseguisse ser compreendido nos dias de hoje. O que não é o caso nem para a esquerda nem para a direita que lutam por outro mundo. Abdouly é praticante declarado do liberalismo clássico, e não é exagero afirmar que Adam Smith reconheceria nele sua imagem e semelhança. A ala mais intelectual do tucanato brasileiro tenderia, inclusive, a achá-lo um tanto o quanto radical.

"Sou um liberal, um partidário da economia de mercado", declarou Abdoulay na mesa que tratou do tema "O lugar da Africa na geopolitica mundial ", na qual também falou o ex-presidente Lula. Senhor de uma autenticidade raramente vista para um chefe-de-Estado, Abdoulay revelou à audiëncia que não queria të-los em seu país por não acreditar nem ver nenhum resultado prático nas ações dos alteromundista. Mas, já que estavam, que fossem bem-vindos e realizassem suas atividades "sem violëncia".


Afirmando sua convicção na eficácia do modo liberal de tratar os problemas, Abdoulay disse que vem discutindo com os organismos financeiros internacionais a proposta de taxar em 20% as operações transnacionais de transferência financeira. E estava confiante. A partir desse momento, teve início o abismo de compreensão entre o que dizia o presidente do Senegal e o público presente. Muitos estrangeiros pensaram ser uma questão de tradução.


André Peixoto de Souza, 33 anos, professor de Ciëncia Política, do Paraná, foi um deles. Verificado que não, dividiram-se entre o constrangimento e a risada abafada. Como "homem que acredita na transformação pelas ideias", o presidente do Senegal relatou ainda, com orgulho, o fato de o país ter um Código de Imprensa aprovado consensualmente entre jornalistas, sociedade e governo, "sem debate". Em seguida, elogiou o crescimento econömico do pais utilizando a renda per capita como indicador : "passamos de 500 dólares, em 2000, para 1.240 dólares hoje", disse no melhor estilo liberal desconsiderando a distribuição da renda como fator fundamental para o desenvolvimento equilibrado.

A palestra do presidente Abdoulay Wade forneceu a base teórica da realidade exposta nas ruas de Dakar: indigëncia traduzida num infinito camelódromo a céu aberto. O Senegal tem 12 milhões de habitantes, 48 % de desempregados' e 67 % de analfabetos. Agora, Abdoulay tenta a reeleição de seus ideais por meio de seu filho, Karim Wade.


Os jovens senegaleses esclarecidos já dizem que o presidente está reestabelecendo o princípio ancestral de império que está na origem dos grupos etnicos. Se Karim vencer, o Partido Democrático Senegalës terá mais quatro anos de exercício da democracia liberal da ordem espontänea do livre mercado. Para o papel que o Senegal vai desempenhar no lugar da Africa na geopolítica mundial, isso deve significar uma intensa atividade política dos movimentos dos 123 países presentes ao FSM que vão ter muito o que fazer para que o outro mundo possível não seja um ainda mais incrível mundo novo.

Hoje, entre os 54 países do continente africano, só Africa do Sul e Cabo Verde, que acaba de realizar eleições e garantir a vitória do PAICV _ Partido da Independëncia de Cabo Verde_ são democracias comprometidas com crescimento traduzido em redução da desigualdade, da fome, da pobreza e do desemprego, e articulados com a preservação ambiental.

Nenhum comentário:

Postar um comentário