sábado, 5 de fevereiro de 2011

Carta Maior: CLAMOR DAS RUAS SANCIONA POLÍTICA INDEPENDENTE DO ITAMARATY

Não há projeto alternativo claro às ditaduras e semi-ditaduras aliadas dos EUA no Oriente Médio. Mas a saturação popular após décadas de obscurantismo e miséria acumula vapor suficiente para arrebentar as tampas da blindagem repressiva que protegia regimes e seus cúmplices internacionais.

A perplexidade das elites locais é a mesma de seus aliados urbi et orbi -não só os EUA ou a direita de Israel, mas também o conservadorismo político brasileiro, por exemplo. Nos últimos anos, a coalizão de interesses demotucanos criticou acidamente a política externa independente de Lula na região.

Não seguir a cartilha da subserviência esférica às linhas do departamento de Estado norte-americano era apontado como sinônimo de complacência com o desrespeito aos direitos humanos -caso da tentativa brasileira de mediar o conflito iraniano/norte-americano em aliança com a Turquia.

Nada se dizia, porém, sobre a podridão social e repressiva em regimes vistos como 'confiáveis' - entre eles o do Egito, agora em chamas.

Graças a ousadia do Itamaraty sob o comando de Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães, hoje o Brasil goza de prestígio e simpatia junto às forças políticas emergentes em diferentes pontos da região, onde o furor difuso das ruas já provoca debandadas e concessões.

Na Tunísia, após um mês de conflitos e 23 anos de ditadura, o déspota Ben Ali escafedeu-se deixando um rastro de cerca de 60 mortos e centenas de feridos. No Iêmen, Ali Abdullah Saleh, desistiu da reeleição em 2013 e tenta, ao menos, garantir-se até lá oferecendo prendas aos militares. Na Jordânia, caiu o primeiro-ministro. Na Síria, Bashar al Assad, anuncia mais mudanças econômicas e institucionais. Na Argélia, sob 'estado de exceção' há 20 anos, Bouteflika garante que vai devolver o poder às urnas. No Egito, Mubarak insiste em comandar seu próprio funeral, mas nem os EUA tem mais paciência com o cadáver político do seu aliado.

A intenção é sepultar o corpo rapidamente para evitar que a putrefação contamine até possíveis substitutos de confiança do Ocidente -entre eles a alta oficialidade do Exército. A mídia demotucana finge não ver o óbvio: graças à postura independente dos últimos oito anos, o Brasil emerge nesse cenário como um interlocutor respeitado e confiável, um parceiro equidistante que coloca a paz e o desenvolvimento social e econômico acima dos fundamentalismos. Não apenas os inspirados em Alá, mas também daqueles que, ajoelhados no altar dos direitos humanos, abençoam a tortura e a miséria como o 'preço' a pagar pela estabilidade dos suprimentos de petróleo.

Carta Maior




Analistas avaliam primeiro mês de Dilma como técnico e discreto

fonte: www.vermelho.org.br

Completados os primeiros 30 dias de Dilma Rousseff à frente da Presidência, os analistas ainda mostram-se confusos e cautelosos na avaliação deste período inicial de mandato, mas uma constatação já começa a aparecer com bastante frequência: há uma diferença entre o estilo "técnico e discreto" de Dilma e o estilo popular e discursivo de Lula . Porém, esta constatação se baseia muito mais numa comparação ligeira com o que foi a gestão anterior do que propriamente com o perfil do novo governo.

A própria presidente fez ontem (3) uma brevíssima avaliação de seu primeiro mês de governo afirmando que foi de “muito trabalho”. Bem-humorada, ela disse que foi uma indicação do ritmo que pretende impor a seu governo. “Foi um bom começo de governo. Acho que foi um primeiro mês de muito trabalho, é um indicativo da quantidade de trabalho que teremos nos próximos meses”, afirmou ela após participar do anúncio da gratuidade de medicamentos contra diabetes e hipertensão em redes de farmácias populares.

Retomando parte do discurso de sua campanha, quando prometeu erradicar a pobreza extrema no Brasil, Dilma declarou que a oferta de medicamentos de graça é um dos pontos que a permitirá cumprir o acordado na corrida presidencial.

Esta declaração de Dilma e o conjunto da agenda oficial que a presidente cumpriu no primeiro mês indicam que a presidente está concentrada nas tarefas administrativas que permitam ao seu governo cumprir as promessas de campanha.

É uma boa sinalização para o interesse público, mas esta opção por uma agenda "técnica" e "administrativa" tem feito com que analistas enxerguem o governo Dilma, neste início de gestão, como "discreto", "distante da população" e pouco disposto a comprar brigas políticas.

Mídia e oposição cautelosas

É certo que a cautela observada por parte da mídia e da oposição, que têm poupado Dilma de críticas contundentes, facilitam esta percepção de um governo de "baixo perfil". Mas ainda é cedo para saber quanto tempo vai durar este comportamento.

A elite adoraria que Dilma se limitasse a fazer um governo "técnico". Afinal, governantes de esquerda populares e com estreita ligação com os movimentos sociais são sempre uma ameaça aos interesses da elite.

Este artigo do sociólogo de direita Alberto Carlos Almeida deixa claro o que esta elite espera de Dilma. E este outro de Nelson Motta revela que a elite busca de forma descarada e grosseira transformar Dilma numa espécie de "anti-Lula" ao elogiar fartamente o "novo" estilo de governar.

Até mesmo a oposição tem lançado críticas genéricas ao “petismo” sem esboçar maiores ataques à figura da presidente que, diga-se, também não deu nenhum motivo para isso.

O ex-deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) alerta que os principais partidos da oposição estão mais preocupados em resolver conflitos internos, ao invés de preparar um contraponto saudável ao Governo Federal: "Tem feito muito pouco, porque há a disputa pela presidência do PSDB entre os grupos de José Serra e Aécio Neves, e também os problemas internos dentro do DEM. Dilma Rousseff vai monitorar a oposição, ela não será um fator de incômodo. O risco dela é mais com relação aos partidos da base aliada do que com a oposição".

E a mídia, por sua vez, parece dedicada a um novo esforço de cooptação, tentando atrair as figuras chaves do novo governo, incluindo a nova presidente, para sua agenda liberal-conservadora, como a questão do ajuste fiscal.

Entre a grande e a pequena política

O economista Eneas de Souza avalia que, na grande política, o governo de Dilma vai bem. “É um governo que tem estratégia e projeto nacional. Projeto que define a posição do Brasil na geoeconomia e na geopolítica mundial e que valida o nosso lado interno com a necessária erradicação da miséria e da ampliação dos direitos da cidadania”. Ele acredita que Dilma “vai se apoiar no capital produtivo e na população de baixa renda, aglutinando empresários, operários, trabalhadores, desempregados, a classe média possível e os deserdados do sistema para o seu apoio”.

Souza, porém, diz que o problema de Dilma está na pequena política. “Essa é aquela dos jogos vis, das propostas venais, das chantagens políticas, das disputas de cargos, das pressões partidárias. E é aí que Dilma precisa ir além do que já sabe, fazer um longo aprendizado do tecer, do costurar e do articular a pequena e a Grande Política”.

“Seus primeiros passos são animadores: a constituição de um núcleo de governo de sua escolha pessoal: Fazenda, Banco Central, Planejamento, Casa Civil; a vitória com maioria da base do governo na presidência da Câmara e do Senado; uma presença discreta, mas civilizada na reabertura do Judiciário; e uma abertura diplomática significativa para a Argentina, comovente e promissora, envolvendo discussões de política mundial e regional, direitos humanos e uma colaboração pública e de negócios”, avalia Enéas.

O analista deixou de listar uma ação de Dilma que rendeu frutos tanto na “pequena” quanto na “grande” política: a decisão de ir pessoalmente ao Congresso Nacional ler a mensagem da presidência na abertura do Ano Legislativo. Com isso, Dilma não apenas reforçou as diretrizes programáticas de seu governo, como sinalizou que está disposta a ter uma relação próxima e colaborativa com o legislativo.

Contornando o PMDB

No que Enéas de Souza chamou de “pequena política”, a principal questão que se colocou para a presidente neste primeiro mês de mandato foi o apetite do aliado PMDB por cargos. A partilha da composição dos ministérios trouxe irritação à principal legenda da base aliada e deu trabalho ao vice-presidente Michel Temer, que tem exercido a função de "bombeiro" nestas primeiras semanas.

O cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília (UnB) diz que "está parecendo que o PMDB tem facções dentro dele e que a Dilma não está disposta a agradar”. “Diferente do ex-presidente Lula, ela não parece estar disposta a dar os cargos desejados e preteriu alguns grupos, mas vamos ver, vejo pessoas elogiando essa aposta que ela fez".

O cientista político, David Fleischer, também da UnB, é um dos que considera que, apesar da pressão, Dilma agiu bem com o PMDB e não deixou a tensão aumentar. "Ela foi esperta com o PMDB e evitou aquilo que aconteceu na época do Severino", analisou, lembrando quando Lula perdeu o controle da base aliada, e o deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) chegou ao comando da Câmara.

José Paulo Martins Júnior, cientista político da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) avalia que a briga interna por cargos não deve dar trégua. Ainda mais se o Executivo precisar contar com a bancada do PMDB inteira em votações.

Marco Antonio Teixeira, cientista político da FGV (Fundação Getúlio Vargas), afirma que, mesmo com uma base aliada grande, projetos defendidos pelo governo podem ser rejeitados, dependendo do tema a ser discutido. “- O Congresso é formado por partidos que ora apoiam o governo, ora que fazem oposição. Dependendo da questão a ser votada, são suscitados posicionamentos individuais dos parlamentares,
independentemente de serem ou não aliados”.

Para o especialista, o ideal é que as negociações em torno de aprovação de propostas sejam mais públicas e transparentes, para evitar que a barganha por cargos apareça.

Ação e discrição

Na maioria das matérias jornalísticas que trataram dos primeiros 30 dias do governo Dilma, duas palavras apareceram muito: discreto e tecnocrático. “Dilma apareceu pouco em público e deu sinais de que o estilo gerencial e cobrador de metas é o que deve prevalecer na administração”, diz uma das reportagens, sintetizando a percepção geral de que este estilo mais reservado e voltado para questões administrativas mostrou diferenças claras no jeito de governar em relação a Lula, seu antecessor, um líder político de massas, que gostava de discursar e viajar.

O estilo discreto, quase silencioso, de Dilma se confirma na comparação das agendas dela e de Lula, considerando as primeiras semanas dos dois no poder.

Nos primeiros 30 dias de seu primeiro mandato, Lula discursou sete vezes, viajou a três países, lançou um programa de governo, o Fome Zero, fez uma reunião ministerial no segundo dia de governo e viajou pelo país três vezes. Quando completou uma semana no cargo, o ex-metalúrgico levou 30 ministros para conhecer comunidades pobres no Piauí e em Pernambuco.

Dilma completa o período com uma viagem internacional, à Argentina, quatro breves deslocamentos pelo país, um deles sem planejamento prévio, após a forte chuva que atingiu a região serrana do Rio de Janeiro e desabrigou milhares de famílias e deixou mais de 800 mortos. A presidente discursou em apenas duas oportunidades, em cerimônias em homenagem ao ex-vice-presidente José Alencar e a vítimas do Holocausto. Em ambas, sem tocar em temas relacionados ao governo.

Na semana retrasada, cancelou sua primeira oportunidade pós-eleições de discursar em palanque: a inauguração de uma usina no Rio Grande do Sul. Evitou, assim, confronto direto com ambientalistas.

Para o professor da UnB João Paulo Peixoto, a mudança, inicialmente, é positiva. “Foi uma mudança no estilo de governo. A administração pública foi por muito tempo politizada. Esse estilo dela [Dilma] de ser concentrada, discreta, vai fazer um bom contraponto na gestão. Até agora, tem sido uma surpresa.”

Segundo o cientista político do Insper, Carlos Melo, Dilma tem demonstrado uma diferença muito grande em relação ao Lula também pelo momento em que o país vive. De 2003 pra cá, o cenário político se redesenhou depois que o PT conquistou a confiança do país. “Ele [Lula] precisou dar credibilidade na época para governar. Talvez agora os fundamentos que tenham ficado obriguem ela [Dilma] a ser mais uma coordenadora gerencial do que estar na linha de frente, fazendo política e aparecendo na TV.”

O perfil político também contribui para essa diferença no estilo de governar. “Enquanto o Lula fez política na massa, ela [Dilma] fez durante a gestão”, afirma Carlos Melo.

"Outro aspecto é que Dilma tem sido bastante avessa às concessões. Ela já começou com um enfrentamento contra a sua base, não só com o PMDB, como também com o próprio PT. Ela [Dilma] também tem sido menos tolerante com as dissonâncias no governo",
o que é positivo, na avaliação do cientista político.

Contudo, para alguns analistas, a discrição adotada por ela, e cobrada dos ministros, ainda deixa muitas dúvidas sobre a linha política da presidente e de seu governo.

Divisão por áreas

O perfil mais discreto também se aplica à gestão dos ministérios. Ao contrário de Lula, que preferia reunir todos os ministros para ouvir de cada um opiniões sobre os rumos que o governo e quais deveriam ser as prioridades, ela avisou na primeira reunião ministerial que raramente reuniria novamente toda a equipe.

Dilma dividiu o governo em quatro grandes áreas e nomeou um coordenador para cada uma delas. A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, ficou responsável por Infraestrutura e PAC. Guido Mantega, da Fazenda, vai coordenar as ações de Desenvolvimento Econômico. Tereza Campello, do Desenvolvimento Social, será gerente das ações Erradicação da Miséria. E o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral, assumiu o comando das iniciativas do Direito à Cidadania.

Dilma cobrará desses "gerentes" resultados e com eles se reunirá mais frequentemente.
Para o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, que trabalhou com Lula e se manteve no cargo, a substituição da reunião ministerial por reuniões setoriais é um avanço. "Ela percebeu que era impossível realizar uma reunião com 37 ministros. Eram intermináveis e sem resultado", comentou.

Também diferente do antecessor, que em quase todas as reuniões mantinha algum assessor na sala, Dilma prefere que apenas os ministros chamados permaneçam no gabinete e, por vezes, os orienta a não fazer comentários à imprensa.

"As reuniões com ela são mais objetivas. Ela cobra mais números, fala menos de política. A conversa tem mais resultado", disse Lupi.

Estratégia de marketing?

Para o jornalista Ricardo Kotscho, “era natural que assim fosse, já que Dilma e Lula têm personalidades e trajetórias de vida muito diversas. Fora isso, é como se o novo governo fosse apenas uma continuidade do anterior, não só pela manutenção de metade do ministério, mas, principalmente, por ter optado pela mesma política econômica e as mesmas prioridades na área social”. Para ele, é positivo que o governo e a presidente fiquem fora das manchetes, dando espaço para outros setores da sociedade e temas da vida real. “Isto é um sinal de normalidade democrática. Sempre falei em palestras que tinha Brasília demais e Brasil de menos na nossa imprensa, quer dizer, muito espaço para o mundo oficial e suas autoridades, mais do que em qualquer outro país por onde eu tenha passado”.

Valeriano Costa, da Unicamp, avalia que Dilma terá um grande desafio na questão da comunicação. Ele pensa que, em breve, a presidente terá de intensificar a agenda externa ao Planalto para aumentar o contato com a sociedade, tornando públicas as ações de governo. “Se tiver um bom desempenho econômico, mas uma péssima imagem política, isso acaba se refletindo num desgaste junto à base de governo, e não vai ter o retorno que se espera”.

Chegou-se a publicar na imprensa que o roteiro do primeiro mês de Dilma no governo foi desenhado pelo publicitário João Santana que fez a campanha da presidente e continua a atuar nos bastidores para ajudá-la a construir “imagem própria" no poder.

“A mudança é calculada para construir imagem própria”, teria dito um ministro cujo nome não foi identificado em matéria da Folha de S. Paulo. Citando frase de João Santana, o ministro diz que a ideia é fazer com que Dilma "ocupe o espaço imaginário de uma rainha".

Para o cientista político Marcos Coimbra, do Vox Populi, o balanço deste começo de governo Dilma é claramente positivo. “Ela confirma o que se esperava que faria de bom e surpreende de maneira sempre favorável. Até seus desafetos ficam com dificuldade de criticá-la”.

Ele diz que Dilma cumpre a promessa de campanha de dar continuidade ao governo Lula “Mas Dilma está dando à ideia de continuidade um conteúdo inesperado. Tudo que fez até agora mostra que, mantendo seu espírito, ela vai além da continuidade mecânica, em que as coisas ficam congeladas, imutáveis. Como se não pudessem ser melhoradas”.

O período de avaliação de ações de um novo governo é, consensualmente, de cem dias. Até lá, costuma durar o período chamado de namoro ou lua de mel, em que há certa tolerância com o novo governante. No primeiro teste, no entanto, Dilma parece ter sido aprovada.

Mas o economista Enéas de Souza deixa um alerta válido. “O que sustenta, no limite, um presidente é o povo. E essa distância entre o presidente e o povo, que é imensa, por causa da estrutura da democracia moderna, para ser atravessada depende muito da imaginação, da audácia, da tenacidade, do trabalho do dirigente para conectar bases políticas e sociais com tal finalidade. E essa estratégia só a presidenta pode ter, pois o seu olhar é o mais alto do que todos os demais. Se esse olhar fracassar, o país também se ferra. Essa solidão é o desafio de Dilma”.

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