sábado, 22 de janeiro de 2011

dedé muylaert: eu sou o resto

Artur me perdoe este meu total destabocamento, essa minha total incapacidade de ver a realidade como a coisa que ela é, e não a viagem alucinada em que a transformo. Eu namoro a alucinação desde que nasci e com 24 horas de vida uma mulher entrou em meu quarto e me pegou no colo pondo minha mãe a berrar e encher o quarto de enfermeiras e médicos pelos quais a mulher passou e ninguém a viu.

Perdoa esse meu jeito arrogante, desbocado, briguento, marrento prá caralho que critica à tudo, não aceita nada estabelecido, tira a tudo e à todos e não põe nada no lugar, a não ser amor. Critico porque amo. Desço a lenha no que me incomoda e meu incômodo é a minha melhor mais pura forma de amar (Cuidado com meus elogios...com minha pura educação...são abstrações).

Sou um perdido, um Carlitos com botinhas em pés trocados !

Procuro O livro, A música, O filme, A peça, A paisagem , O par de olhos, O afago, A comunhão, O sorriso que só existem nesse meu nível de consciência alterada, diferente, que habito.
Me perdoe não entendo você(s), definitivamente não entendo você(s). Não entendo a paisagem de minha janela , a planície que me rodeia.

Há mais de 30 anos sentei o menino que trago em mim à beira mar e lá ele está olhando o rastro que a Lua desenha no mar à espera que a Sereia Maior (Minha Mãe) me traga pelas mãos ela (s) – a minha doce menina –mulher-flor; a minha alucinação definitiva ; a vida que me resta viver.

Eu sou o resto.

Cazuza produziu a mais bela , profunda , filosófica e genial frase que ouvi em minha vida. Discutindo com o pai ele disse (me definindo. Isso mesmo, ele me definiu sem me conhecer, ou me conhecendo muito, sei lá) : existe o certo, o errado e todo o resto!

Certo e errado são convenções que se confirmam com meia dúzia de atitudes, né? Certo é ser gentil, respeitar os mais velhos, seguir dieta balanceada, assumir o tempo cronológico (como vou provar que minha alma fez 17 anos recentemente), dormir oito horas por noite, lembrar datas importantes, trabalhar, estudar, casar, ter filhos. Certo é morrer bem velho e com o dever cumprido. Errado é dar calote, ser marrento, indelicado, arrogante, repetir o ano, escrever o que não querem, pensar, beber demais, fumar demais, dar doizinho, não programar um futuro decente, dar saltos sem rede. Certo?

Todo mundo de acordo. Mas a VIDA não é feita de teorias, embora a frase do Cazuza seja uma Vida inteira e plena. Mas falta o resto. Tudo aquilo que não consigo verbalizar de tão intenso. Desejos, impulsos, fantasias, emoções, mana alucinação. Porra, meia dúzia de normas preestabelecidas não dão conta de meu recado de viver. Impossível, para mim, enquadrar o que lateja, o que arde, o que berra dentro de mim.

Ponderação Antonio José, ponderação, sussurram em meus ouvidos um bando de ex-atuais-mulheres. Sempre elas......

A escritora francesa Yasmina Reza traduz para mim : “ Quando deixamos de ser jovens trocamos paixão por ponderação”. E não alivia : “Isso é um crime”. Santa Reza!
Eu pondero, tu ponderas, nós ponderamos senão cria um puta mal estar e tumultua a lição de casa. Tem de ser pela cartilha. Pânico geral em mim. Olha só, há alguma coisa de maluquice diabólica em quem jamais foge ao asfalto, jamais improvisa um outro caminho. Há algo de muito estranho em quem aceita ficar refém de tudo que construiu. Fico assanhado, de tanto medo, quando me deparo com quem é tão controlado, tão obediente, tão certo das coisas, tão cú de ferro. Puta que os pariu, uma pessoa capaz de uma atrocidade dessas consigo própria é capaz de coisa muito pior. Tenho muito medo, muito.

Eu sou o resto. Sou maduro e infantil ao mesmo tempo, por detrás desse aparente auto-controle há um desespero e uma solidão infernais. Possuo criatividades suspeitíssimas : invento músicas, amores e problemas, sou fera em criar becos sem saída, e sou curioso pa caralho, quero espiar pelo buraco da fechadura do Deus do Mundo pra descobrir o que não me contaram.

Você me diz que o amor é certo e o ódio errado, e o resto? Eu. Uma montanha de outros sentimentos, uma putassa de uma solidão acompanhada, muita confusão, desassossego, saudades cortantes, necessidade de afeto e umas certas urgências sexuais que nem te conto. E tudo isso não se adapta às regras da ponderação e do bom senso. Sou torto. Te desafio. Abra suas gavetas que lá há bilhetes secretos que contariam outra versão dessa porra dessa história que vocês me contam.

Todo o resto me assombra. São as escolhas que não fiz, os beijos que não dei., as decisões que tomei não tomando, os mandamentos que obedeci cegamente. Sou um filho da puta – a troco de que fui tão bonzinho?

Há o certo, o errado e o que me dá medo, me atrai, me sufoca, me entorpece. Não sei lidar com as pessoas. Não aceito que as mulheres de minha vida, todas elas, se casassem com outros.

É certo ser magro, gostoso, bonito, rico, educado, obediente, pensar corretamente, não voar, é errado ser gordo, feio, pobre, burro, analfabeto, galinha. È errado viver sorrindo. E todo o resto? Heim? Me diz, porra? E todo o resto que nada tem a ver com esses reducionismos: é minha fome por idéias novas e inconcebíveis, é meu rosto – olha pra ele agora, vamos olhaaaaa – vê minhas cicatrizes de estimação, minha dor, meus erros, minha procissão de desilusões passando diante de minhas retinas que se abalam no vão do pingente suicida e à minha mão? Você vê isso quando lembra meus olhos? Então você não me conhece. Eu sou o resto.

E todo o resto é muito vasto, muito mais vasto que o que me rodeia. É minha porralouquice, minha ausência de certezas, meu silêncio ( você escutou o meu silêncio?), minha pureza , minha inocência que se mantém vivas dentro de mim, mas que ninguém...ninguém percebe, só porque acham que eu cresci. Mermão, a maturidade é um álibi frágil demais pra você. Ela te dá a ilusão que você sabe direitinho o que fazer, mas você... é, você mesmo, entende muito pouco das engrenagens do lado escuro da Lua, então você não sabe nada.

Eu sou o resto, me perdoe, mas sou sim...o resto!
E o resto é tudo aquilo que você não aplaude nem vaia. Porque você não vê.
Delirante? NÃO! Apenas o resto, apenas o resto, é o que sou!

CRUZ CREDO

não sou um cruzado
me falta a capa
a espada
o cavalo
e a cruz

mas creia
sou o último
fodedor
a perseguir
o rabo
da LUZ!

Antonio José Muylaert Batista

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